Dodecaedro Sétimo Fragmento da Décima Terceira Voz

"Uma corrente de energia percorreu os outros. Júlio apressou-se a trazer o espelho. Pedro tirou da cintura o punhal marroquino. Marília acendeu a vela. Depositei na mesa o copo de vinho. Com a mão direita, abri devagar o papel sobre a palma da mão esquerda. Antes que alguém pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, soprei fortemente o pó. Flutuou por instantes no ar, depois espalhou-se sobre os móveis, pelos cantos, pelas quinas. Dissipar a névoa, sim, talvez fosse esse o meu sentido. Mas se era realmente assim, não compreendia por que, como a noite então, uma grande tristeza, neblina, começou a descer sobre mim. Eu não tinha passado algum antes do caminho de hibiscos, os cães recomeçaram a uivar, eu só queria iluminá-los, a cozinha estava muito suja, não havia futuro. Minha vida me doía fundo sangrada sem saída. Tudo que eu precisava era o sol quente da manhã seguinte que não viria, aquecendo minha cabeça confusa. Cobri o rosto com as mãos e comecei a chorar."

(Caio Fernando Abreu)

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