A você, que um dia acreditou, mas já não acredita mais, nosso muitíssimo obrigado. Obrigado pelo seu entusiasmo que nos contagiou. Por nos ter visto caindo do precipício, por ter mentido, dizendo que tínhamos asas, e por nós termos voado com suas asas de mentirinha. Por nos convencer de que nossos pés, mesmos rígidos, haviam sido feitos para a dança. Por nos ter dado tijolos de vento com os quais construímos nossa ponte de sonho, que as pessoas vêem de longe e chamam arco-íris. Pela insistência em olhar o céu e esperar estrelas cadentes, e por essa chuva de desejos em nossos olhos. Pelo tempo perdido acompanhando o vôo de borboletas, a cantiga dos pássaros, o perfume suave das cores das flores, a cortina da chuva, o brincar das crianças. Pela confiança de que amanhã será melhor que hoje, mesmo sendo impossível, porque hoje a gente quase transbordou o balde da alegria. Pelo olhar sem inveja aos jovens apaixonados e aos senhores e senhoras, também apaixonados. Pela busca cega do amor. Pela defesa do sexo como medida de saúde pública. Pela espera da sorte, ingênua, infantil, gratuita e insistente. Pelo olho que chora, só de imaginar, o pêlo que sobe, só de imaginar, o corpo inteiro em ondas, na vertigem de gozar o mundo. Pelo sorriso retribuído ao desconhecido na rua. Por ser criança com as crianças e, com os adultos, ser criança também. Por ter escondido os fatos para manter a verdade. Por colocar a mão no fogo por Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, fadas, sapos-galãs, pir-lim-pim-pim, abracadabra, abre-te, Sésamo! Por andar sempre mais rápido, mesmo sem saber aonde ir. Por só querer as coisas que duram para sempre. Por ter transformado nosso temor em tremor de terra e lava de vulcão. Por ter apostado tudo que tinha e, mesmo tendo perdido tudo, dizer que ganhou o jogo. Por dormir à noite, ter sonhos bons e, ao acordar, espalhar que eles vão se tornar realidade. Por dormir à tarde, ter sonhos maus e saber que sonhar foi a maneira de livrar-se deles. Por nos ter dado o exemplo, por ser nosso pai e mãe de sonhos, por nos ter nutrido com o leite de onde emana terra e céu. Por ter tirado nossas cascas, por ter tocado de leve nossas feridas, por ter aberto nossas janelas. Por nos ter dado roupas exóticas e coloridas. Por ter certeza, simplesmente ter certeza, sem prova nenhuma, e continuar tendo certeza, mesmo que a própria certeza lhe aparecesse e duvidasse de que você existisse. Por viajar no espaço à velocidade da luz, e viajar no tempo à velocidade do amor. Por pedir por educação, sabendo que tem direito. Por nos obrigar a ser felizes. Por repetir sempre a mesma história em que o fraco vence o forte. Por ter sido egoísta, extremamente egoísta, e nos querer todos egoístas, solares, brilhantes. Por ter ido tão fundo, tão longe, tão alto, tão dentro, e ter esgotado toda a fé. Por ter se despojado de tudo em que acreditou para ficar mais leve. Por nos ter deixado essa herança que é todo o nosso tesouro. Por nos ter transformado em quem você era e ter se tornado quem nós fomos. Por estar tramando - nós acreditamos! - algum plano secreto, alguma fórmula mágica, algum final de filme encantado. Por nos ter plantado tão dura e gentilmente a semente da esperança que mesmo lhe vendo assim, tão triste, parado, com um peso nos olhos, nos lembramos de que até o sorvete arde na garganta. Obrigado por nossa ignorância, nossa falta de lógica, nossa inabilidade para perceber o óbvio. Obrigado por, no quarto escuro, sabermos onde fica a rede, o vaso com água, o penico e a lamparina apagada. Obrigado por esse olho que nunca dorme, por esse nariz que não cessa de sentir seu cheiro, por esse ouvido atento e antecipado que jura que jura porque jura - como se estivesse encostado no trilho do trem - que você está vindo, já vem vindo, se mexendo, apitando, trazendo presentes, agrados, regalos, o fogo dos deuses, abrindo os braços, desenhando o abraço, entregando o corpo, salivando o beijo, estendendo a mão e contando coisas do arco da velha e novidades de que os jornais nem sabem ainda. Obrigado por essa espera, por essa saudade que nunca morre, por ter ido tão longe para termos a alegria de vê-lo chegar. Entre um pouquinho, venha aqui dentro, temos uma coisa pra lhe mostrar.
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