A Mulher de Vidro (Patrícia Antoniete)

Foi numa noite de início de abril que tudo começou. Passava um pouco das dez, o marido já havia dormido e ela sentia uma sede terrível. Foi até a geladeira, apanhou a jarra d’água, serviu um copo e reparou que sua mão direita estava transparente. Dedos, palma, dorso até um pedaço do punho, tudo tinha virado vidro. Sentia a mão em contato com o copo, as funções estavam intactas, podia mover os dedos que preservavam sua força, mas estranhamente, aquela parte do corpo estava transparente. Voltou para a cama e resolveu não incomodar o marido.
Na manhã seguinte, comentou o fenômeno e ele reconheceu que era estranho mesmo, com certeza já ia passar, beijou-a na boca como quem cospe um caroço e foi trabalhar.
Ela ficou intrigada, mas, afinal, não havia perdido a mão. Ela continuava ali, só que agora era transparente. Concluiu que isso não se tratava propriamente de uma tragédia e foi tratar de seus afazeres.
Com o passar dos dias e das semanas daquele abril ventoso e de céu quase lilás, o restante do braço também virou vidro. Era estranho vestir a blusa e não ver a mão na extremidade da manga. Pensou em pintar as unhas, agora de vidro, de vermelho. Ficou bem interessante.
Continuava a tomar banho e a esfregar o braço e a mão transparentes, podia senti-los, tocá-los. Mantinham, apesar do ocorrido, sua temperatura normal e uma textura agradável.
Uma manhã de sábado, saiu para caminhar, como era de hábito do marido. Pediu que ele lhe segurasse a mão transparente, ao que ele recusou de imediato, pois as pessoas não compreenderiam ao lhe ver com a mão em concha, sacudindo vazia ao lado do corpo dela. Em casa lhe seguraria o quanto quisesse a mão doente. Mas quando chegaram, esqueceu do que havia prometido.
O fenômeno foi se alastrando e boa parte dela se tornou transparente: o braço e a mão direitos, as pernas e mais da metade do quadril. Isso lhe ocasionava algum incômodo, já que era comum o marido pisar em cima dos seus pés, ou esbarrar nela quando via televisão com as pernas apoiadas na banqueta.
Ela sentia-se cada vez mais frágil. Temia sair à rua ou procurar outras pessoas, pois poderia ser atropelada, ou sofrer um encontrão e danificar as partes de vidro. Quando o marido precisava que ela fosse às compras com ele, era necessário que se vestisse bem, dos pés à cabeça, com luvas mesmo no verão, para evitar que os outros percebessem sua inusitada condição.
Ela já intuía o que cedo ou tarde ia acontecer e, quase no final do ano, realmente aconteceu. Ela olhou-se no espelho e não se viu mais. Tinha virado vidro, dos pés à cabeça. Sua reclusão, então, recrudesceu. Evitava sair, não procurava os amigos, não falava mais com a família que não sabia muito bem porquê, mas ela não aparecia mais. O marido resolveu lhe atar uma fita rosa ao pescoço para evitar os sustos que ela lhe causava ao começar a falar de repente, sem que ele a tivesse visto chegar.
Ela pedia para que ele a levasse a restaurantes, bares, exposições. Para evitar constrangimento de verem roupas flutuantes e talheres se movendo sozinhos, ele sugeriu que ela fosse nua para que passasse despercebida. Afinal, ninguém a veria mesmo. O marido não podia lhe dirigir a palavra, já que pensariam que era louco, conversando com a cadeira vazia à sua frente, comentando sobre uma obra de arte com o extintor de incêndio. Ela notou a péssima companhia que era e parou de pedir para sair. Assim, cada vez menos ela sabia do mundo, das coisas da vida, das pessoas do lado de fora da porta e cada vez menos eles tinham coisas a conversar. O que não é visto não é lembrado, não é mesmo? Ou seria o contrário?
E foi assim que ela passou a fantasma de pessoa viva, assombrando sua própria casa. Quando o marido recebia visitas, dizia que ela estava viajando, ou na casa dos pais, ou indisposta. Depois, já com novos amigos que não a conheceram, omitia sua existência. Ela então sentava num canto da sala e observava as pessoas de carne e osso conversarem, trocarem idéias, carinhos, afagos e sorrisos.
Uma tarde, farta de sua condição e da solidão que sentia, resolveu dar fim aquilo tudo. Deixou um bilhete para o marido ao lado da fita rosa dizendo que não a procurasse. Sorriu ironicamente um sorriso que ninguém via, que era um misto de dor, desespero e coragem.
Saiu do prédio sem que ninguém a visse e sentiu na pele transparente o calor do sol de final de dezembro. Esperou por um caminhão enorme e se jogou contra o pára-choque. O motorista ouviu o estrondo e freou brusco. Não tinha visto nada. No asfalto, ela estava em cacos, mas nos pedaços de vidro, milhares de sóis.

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