Saí do carro, com um frio de congelar a espinha. Subi as escadas de madeira velha em direção ao saguão de entrada e pedi ao velho que cuidava, por um quarto com cama de viúva. Era noite de transar com a saudade. Peguei a chave e me preparei pra navegar sem vela por dentro daquelas quatro paredes. Fazia umas duas semanas que ela tinha ido embora e parecia não haver selva mais perigosa que nosso antigo apartamento, já tinha me livrado de quase tudo e por isso rastejava pelas ruas da cidade em busca de um local seguro pra ficar. Nessa noite eu tinha achado um lugar propício. Deitei na cama e cerrei os olhos de mãos dadas com a solidão num mar de lençóis até a manhã seguinte. Ia arriscar lembrar novamente como foi que as coisas se esvaíram e apagá-las.
Aí o tango começou. Ela estava estirada no divã da sala de estar do apartamento, lia seu romance preferido. Eu sentado desajeitado no sofá procurando na TV por algum drama que pudesse servir de inspiração pra uma nova poesia. Parecia se sentir sozinha ao meu lado, engolida pela rotina e eu não fazia nada pra mudar tudo isso. Achava que não fosse ligar se um dia depois do trabalho ela não voltasse pra casa, andava obcecado por alguma história quente.
Nos bastidores dos nossos olhos passou a existir um caminho intransitável que nos separava a cada minuto inteiro que corresse sem limite de tempo e de velocidade, e foi quando tentei enxergar esse ponto, que Christine deixou cair seu livro no chão, sutilmente, como quem só queria dizer: “Ei, tô aqui, me ama!” Mas fingi não ter percebido. Eu andava mais burro que o Elliott Smith. Queria escrever algo novo sem ao menos ter terminado meu último romance. Deixava escorrer pelos cantos dos versos dela as gotas finais da poesia que nos mantinha juntos e eu ainda ia pagar por isso, eu tinha certeza que iria. Só não sabia ao certo as coordenadas dessa dor.
Olhou-me distante e eu parei na esquina de sua íris, esquecendo o caminho de volta. Fazia um tempo que não a sentia assim. Comecei a me arrepender de tanta coisa, ao passo que ela levanta, vem até mim e se ajoelha pondo as mãos na minha perna e me devora as idéias. Tirei seus óculos de armação preta, acariciei aquele rostinho lindo e arrumei o seu cabelo atrás da orelha. Descansei meus lábios no dela, enquanto pegávamos fogo. Subiu em meu colo e soprou no meu ouvido que me queria por dentro. Ergui seu vestido xadrez a prumo e entrei, respirando o ar ofegante daquele universo. Ah, Christine honrava seu sobrenome francês, e como… Eu ali fazendo pulsar o demônio que abrigava meu código genético, reescrevendo um conto de Marquês de Sade como se fosse Neruda.
É, tudo estava indo bem demais naquela noite, mas nada é perfeito e bem ali, depois de enrijecer as pernas e gemer calidamente em meus ouvidos, ela desaba em lágrimas. Não estava entendendo nada, ou melhor, até entendia, mas não podia ser verdade, ainda era cedo. Prestes a marcar minha alma com ferro em brasa, falou que ia me deixar, mas que me amava ainda. Por que é que as pessoas deixam umas as outras ainda quando se amam? Alguém sabe? Droga. Eu não sabia. De certo não era amor coisa nenhuma, podia ver pelo jeito que eu a tratava, e agora eu, estagnado vendo tudo em câmera lenta com o coração sendo digerido pelo estômago, sem conseguir disparar uma única palavra, choque total. Estava doendo, e é quando começa a doer que a vida injeta arrependimento em nossa jugular e segura uma tonelada de sarcasmo na cara, enquanto sorri sádica.
“Vida, cospe de volta o que tu está prestes a tirar de mim.” Não me ouvia.
Pegou seu casaco e me deixou. Eu não tinha mais nada, só passaria a odiar meus textos, poemas, crônicas e todas essas porras que um escritor fraco pode concretizar. Mas tudo bem, eu tinha mais um drama pra terminar e pelo jeito era o dia. Comecei a procurar nas gavetas meu bloco de notas pra vomitar mais uma porção de palavras e frases falsas e meu celular começou a tocar…
Acordei. Era o despertador. Um grande pesadelo e ela não tinha me deixado. Não acreditei. Respirei aliviado, mas com o coração querendo voar pela garganta. Christine dormia de bruços em nossa cama, com o lençol escuro cobrindo um pequeno espaço entre sua coxa esquerda e a lombar. Bem como costumava ser. Eu já tinha transpirado a nascente de um rio e me livrado de todas as toxinas que um relacionamento monótono te oferece de bandeja, precedendo um final absurdo como no sonho que tive. Passei um café e fiquei escorado na porta, esperando ela acordar pra eu poder restaurar nosso amor, ela ia ser a mulher mais feliz do mundo. Sério. E eu já sabia exatamente como finalizar meu romance escrito. Eu ia amar mais e escrever menos.
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