Sobre telepatia (Tony Bellotto)

Confesso que sou um cético empedernido e permanentemente desconfiado e que abdico por princípio, como define o dicionário, “de uma compreensão metafísica, religiosa ou absoluta do real”. Pode ser só um sintoma de envelhecimento – preferia que fosse de amadurecimento -, pois nem sempre fui assim. Lembro-me de ter sentido na pele, em tempos idos, o grande fluxo taoísta da existência, e de ter visto, certa vez, um vulto etéreo atravessar a parede do meu quarto. Talvez fosse apenas o efeito de estranhas substâncias que eu ingeria e inalava na época.

Durante um período de minha vida em que estava separado e dividia a guarda de minha filha com minha ex-mulher, realizei algumas experiências de telepatia com minha filha em noites que ela passava comigo. Provavelmente minha filha nem se lembra mais disso, pois devia ter uns cinco, seis anos (agora está às vésperas de completar 30). Inspirado por algo que lera em algum livro – “vagos curiosos tomos de ciências ancestrais”, como diz o narrador de O Corvo, de Edgar Allan Poe -, ficávamos eu e a pequena cada um num quarto da casa, separados por portas fechadas, munidos de lápis e papel, alternando-nos nas funções de emitir e receber ondas telepáticas. Ou seja, um fazia um desenho e se concentrava nele, enquanto o outro tentava reproduzir o desenho de acordo com as imagens que estivesse “vendo” ou “recebendo” mentalmente.

O que me levava a realizer tais experiências, talvez, mais uma vez, fosse apenas o efeito de estranhas substâncias que eu ingeria e inalava na época. O fato é que os experimentos nunca revelaram nenhum desenho sequer vagamente assemelhado ao outro, e assim terminaram fracassadas minhas tentativas de me comunicar telepaticamente com minha filha. Ela e eu teríamos ganhado mais se tivéssemos investido o tempo em ver filmes, ou pedir pizza.

Dias atrás, pesquisando por curiosidade a vida do escritor americano Upton Sinclair, autor de clássicos como The Jungle e Oil! (que virou filme há pouco tempo, Sangue Negro, estrelado por Daniel Day Lewis), li que Sinclair e sua esposa, Mary Craig, realizaram experiências com telepatia, e que estas acabaram resultando num livro chamado Mental Radio, cujo prefácio era escrito por ninguém menos que Albert Einstein, ele mesmo, em 1930 já uma sumidade “bigger than life” e detentor de um Nobel pela formulação da Teoria Geral da Relatividade.

As experiências de Upton e Craig foram em geral bem sucedidas, e Einstein, no prefácio, atestava justamente a validade científica de tais experimentos. Isso não mudou em nada meu ceticismo, mas fez, não sei por que, Einstein e Upton Sinclair ganharem alguns pontos a mais no meu conceito (como se eles precisassem disso…). Um prêmio para quem adivinhar (ou captar telepaticamente) no que estou pensando agora. Uma dica: a imagem em que que penso – ou em que pensava quando escrevia esta frase- está citada no texto.

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