São as minhas mãos que
tremem até não poder segurar os talheres
sou eu sentado na cama,
transido de medo de acordar para viver
sou eu a vomitar de medo
como desde os tempos da escola primária
sou eu a driblar o
futuro, acabando por sair pela linha lateral
sou eu agora em
espasmos, assemelhando-me a um campo de minas
sou eu agarrando-me aos
poucos que me disseram alguma coisa
eu tentando não cair,
não sabendo como vim parar a esta copa
sou eu com a morte nos
olhos que trago dentro dos meus olhos
eu, fidelíssimo traidor,
não entendendo porque me achei só
eu a fugir de
encontrar-me e sempre na exaustão de me encontrar
eu em cada vivo, em cada
morto, em cada esquina da cidade
sou eu não conseguindo
adormecer e, adormecendo, não dormindo
sou eu sem saber fugir a
uma luxúria que jamais me faz feliz
eu a habitar um corpo
doloroso, como semáforo amarelo
eu vendo outra coisa em
cada coisa e em tudo palavras de papel
eu carregando o peso do
passado sobre um futuro inexorável
eu mais mortal que os
mortais e defrontando a imortalidade
sou eu com a cara e a
alma à venda nos escaparates insensíveis
eu pedindo esmola a quem
despreza o que lhe posso dar
sou eu rindo-me de mim
para evitar chorar por tudo o mais
sou eu irremediavelmente
sozinho para toda a eternidade
sou eu sem música de
fundo, vendo-me num espelho desbotado
sou eu a fumar como se
me defumasse para me poder comer
sou eu silenciando um
grito por minuto e escrevendo no mel
eu vestindo toda esta
nudez, só para só amar a verdade do amor
e se isto é difícil de
entender, dizendo-te outra coisa não seria eu.
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