Arrumando minha casa de dentro juntei estilhaços de um tempo em que, cansada de sóis
vazios e dessas tempestades de agonia, pra esquecer um amor antigo, arremessei
meu coração contra a parede. Eu descobri que algumas pessoas se juntam não por
afeto, mas por tristeza encomendada. Que certas coisas que deveriam afastar, às
vezes aproximam.
Quando
arrumei minha casa de dentro tinham muitas declarações de amor de gente que já
não me amava mais pelo caminho. E quando eu estava prestes a começar uma vida
nova, tropeçava nesse passado e nos referenciais antigos e voltava para lá que
era um lugar aparentemente mais seguro. E ergui tantas paredes rabiscadas pelo
medo.
Descobri,
quando abri as janelas, que uma chuva muito forte também tem som de aplausos.
Que na pauta dos meus lábios só cabem palavras macias. Que há que se beber do
outro também a fonte de ideias para que tudo não se resuma num encontro
incandescente de peles porque devemos explorar todas as qualidades do desejo.
Eu
descobri que tenho um jeito de gostar exagerando os fatos e que a ficção é o
que mais participa da minha realidade. Mas que sempre fica um rastro na minha
pele se alguém se demora nas carícias. E que não se pode ter a força de uma
represa retendo seus próprios líquidos.
Quando
arrumei minha casa de dentro eu descobri que essa é uma tarefa infinita. E há
que se reordenar as coisas incansavelmente pra se ter espaço pruma nova cor. E
que uma boa base impede um desmoronamento, mas que a implosão da estrutura
inteira, às vezes, é a coisa mais sábia a se fazer em determinados momentos.
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