No meio do caminho havia um buraco (Milene Lima)

 


Em frente ao ginásio um amontoado de carros e gentes, tornando lentos os movimentos, com suas pressas desmedidas. Daqui a pouco, bastando caminhar alguns metros, haveria magia num palco.  E eu estaria lá para ser testemunha apaixonada de cada verso cantado em tons de perfeição.
Tudo se encaminhando na mais absoluta normalidade, não fosse o buraco estrategicamente colocado para demonstração prática do que é inacessibilidade. Buracos numa espessura média de uma bola de golfe, engolidores de muletas desavisadas, conduzindo sua portadora ao chão, de joelhos, pedindo perdão nem se sabe a quem. Foi uma paixão avassaladora do maldito buraco pela pobrezinha da muleta, conduzindo eu, a Terezinha da hora, ao chão. Mas não existe Terezinha sem três cavalheiros a acudi-la, não é? Meu irmão Jean aflito de um lado, um moço desconhecido do outro e quando eu pensava não conseguir, um segurança me pegou de jeito pela cintura e pronto, era hora de ignorar o buraco e pensar no que havia me feito viajar mais de cem quilômetros até aquele local.
Era chegada a hora. As luzes no palco denunciavam o que eu jamais acreditei presenciar. Aquele sujeito magrinho, de tripinha no cabelo e transbordante em carisma era o mito, o poeta, o cara que embalou meus pensamentos por toda a minha vida. Meu joelho esqueceu-se de continuar me incomodando. Eu chorava um choro alegre. Eu ria um riso infantil. Eu estava incrédula e feliz à beça. Meu irmão, Marlene – a cunhada, Moisés que não é o profeta nem o poeta – e a sua querida Débora, se colocaram desconfortáveis apenas para me possibilitar a famigerada acessibilidade. Desconfio que essa palavra infame deva estar entre as mais odiadas por mim em instantes bem próximos. E não fosse por mim, aproveitaria cada migalha daquele show por eles, pelos olhares de cuidado e amor. É só cercada de gente assim que eu sei viver... e é tão bom.
E o show... Não sei o que posso dizer para desenhar a maravilha na medida exata. Eu não o aplaudi como fez todo o ginásio. Eu não gritei eufórica. Eu apenas imergi naquele mar de poesia e deixei fluir lágrimas alegres que molhavam o meu riso. Era o Djavan ali, ao alcance dos meus olhos incrédulos. Eu fui. Eu vi e ouvi. Principalmente, eu senti. E foi coisa pra não esquecer nunca mais, mesmo sem ter havido Pétala, ainda assim ouvir o ginásio inteiro cantando feito fosse um só, um bocado das suas canções, foi coisa de não se saber contar direito.
No final de tudo, era preciso fazer o caminho de volta até fora do ginásio, reparando na buraqueira sem freio. Pensei no quão injusta e irônica é a vida, que dificulta tanto pro sujeito acertar números da loteria a fim de fazer mais fácil o seu dia-a-dia, mas, num chão grande daqueles, acertar num buraco mequetrefes daquele foi de tanta facilidade. E o segurança moreno, não tão alto, bonito e sensual, nem estava mais lá para me abraçar e perguntar se eu estava carente. Oh, vida!
Não sei se é Sol ou chuva que chega daqui a pouco. Sei apenas que vou dormir sem dar muita importância a joelho arranhado ou dor sem jeito que carrego no ombro. Tivesse eu de frente pro buraco, tentaria ajustar as contas. Diria algo que o inundasse de remorso para todo o sempre e nunca mais ele engoliria muletas de ninguém. Mas eu vou assim, leve e tentando digerir "as borboletas no meu estômago", feito disse o meu amigo Itallo, cuja frase acabei de furtar.
No meio do caminho havia um buraco... mas eu to tão feliz que nem me importo.

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