Em frente ao ginásio um amontoado
de carros e gentes, tornando lentos os movimentos, com suas pressas desmedidas.
Daqui a pouco, bastando caminhar alguns metros, haveria magia num palco. E eu estaria lá para ser testemunha
apaixonada de cada verso cantado em tons de perfeição.
Tudo se encaminhando na mais
absoluta normalidade, não fosse o buraco estrategicamente colocado para
demonstração prática do que é inacessibilidade. Buracos numa espessura média de
uma bola de golfe, engolidores de muletas desavisadas, conduzindo sua portadora
ao chão, de joelhos, pedindo perdão nem se sabe a quem. Foi uma paixão
avassaladora do maldito buraco pela pobrezinha da muleta, conduzindo eu, a
Terezinha da hora, ao chão. Mas não existe Terezinha sem três cavalheiros a
acudi-la, não é? Meu irmão Jean aflito de um lado, um moço desconhecido do
outro e quando eu pensava não conseguir, um segurança me pegou de jeito pela
cintura e pronto, era hora de ignorar o buraco e pensar no que havia me feito
viajar mais de cem quilômetros até aquele local.
Era chegada a hora. As luzes no
palco denunciavam o que eu jamais acreditei presenciar. Aquele sujeito
magrinho, de tripinha no cabelo e transbordante em carisma era o mito, o poeta,
o cara que embalou meus pensamentos por toda a minha vida. Meu joelho
esqueceu-se de continuar me incomodando. Eu chorava um choro alegre. Eu ria um
riso infantil. Eu estava incrédula e feliz à beça. Meu irmão, Marlene – a cunhada,
Moisés que não é o profeta nem o poeta – e a sua querida Débora, se colocaram
desconfortáveis apenas para me possibilitar a famigerada acessibilidade.
Desconfio que essa palavra infame deva estar entre as mais odiadas por mim em
instantes bem próximos. E não fosse por mim, aproveitaria cada migalha daquele
show por eles, pelos olhares de cuidado e amor. É só cercada de gente assim que
eu sei viver... e é tão bom.
E o show... Não sei o que posso
dizer para desenhar a maravilha na medida exata. Eu não o aplaudi como fez todo
o ginásio. Eu não gritei eufórica. Eu apenas imergi naquele mar de poesia e
deixei fluir lágrimas alegres que molhavam o meu riso. Era o Djavan ali, ao
alcance dos meus olhos incrédulos. Eu fui. Eu vi e ouvi. Principalmente, eu
senti. E foi coisa pra não esquecer nunca mais, mesmo sem ter havido Pétala,
ainda assim ouvir o ginásio inteiro cantando feito fosse um só, um bocado das suas
canções, foi coisa de não se saber contar direito.
No final de tudo, era preciso
fazer o caminho de volta até fora do ginásio, reparando na buraqueira sem
freio. Pensei no quão injusta e irônica é a vida, que dificulta tanto pro
sujeito acertar números da loteria a fim de fazer mais fácil o seu dia-a-dia,
mas, num chão grande daqueles, acertar num buraco mequetrefes daquele foi de
tanta facilidade. E o segurança moreno, não tão alto, bonito e sensual, nem
estava mais lá para me abraçar e perguntar se eu estava carente. Oh, vida!
Não sei se é Sol ou chuva que chega daqui a
pouco. Sei apenas que vou dormir sem dar muita importância a joelho arranhado
ou dor sem jeito que carrego no ombro. Tivesse eu de frente pro buraco,
tentaria ajustar as contas. Diria algo que o inundasse de remorso para todo o
sempre e nunca mais ele engoliria muletas de ninguém. Mas eu vou assim, leve e tentando digerir "as borboletas no meu estômago", feito disse o meu amigo Itallo, cuja frase acabei de furtar.
No meio do caminho havia um
buraco... mas eu to tão feliz que nem me importo.

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