Já
soaram as doze badaladas. Estou sozinho nesta sala à meia luz acompanhado
apenas por minhas lembranças passadas e por esse copo quase vazio de vodca
quente. Vodca, meia-noite, eu, lembranças e tudo o que há nela me preenche, mas
não conforta, nem completa, nem porra nenhuma de bom. Como todo bom
capricorniano ando conversando comigo mesmo, através destas cartas sem
remetentes, escrevo diários inúteis e encaro papéis brancos como um covarde que
nunca soube como voltar atrás de nada. Acho que até eu mesmo já cansei da minha
voz e me tranco aqui, sendo obrigado a vomitar essas palavras e engoli-las
posteriormente.
Eu
não me aguento.
Eu
não queria escrever isto aqui. Não queria dar holofotes às tristezas. Tinha
prometido à mim mesmo não mais falar das dores. Mas as palavras escorrem por
meus dedos, como se as letras fossem expulsas de mim. Não tenho provas
concretas. Não tenho álibis. Não tenho, ao menos, testemunhas ao meu favor.
Tudo que eu tenho se mistura em mim e saem por estas sílabas mal formatadas.
Por estas mãos que falam por mim.
Já
teve a sensação de estar sozinho dentro de si? Como se você fosse o seu próprio
mundo e o mundo lá fora te cuspisse por inteiro.
São
os segundos mais lentos da história e parece que ninguém percebe.
Há
novas marcas na minha pele. Talvez, tuas pegadas ainda demorem a sair de mim
como tatuagens maoris ou coisa assim. Teu nome, tua boca, teus carinhos e tuas
mordidas ainda estão por aqui. Acho que me acostumei a ser tua estrada, tua rua
e teu mau caminho.
Com
você, perdi o juízo. Sem você, perdi todo o resto.
Bebo
mais um gole e a vodca me esquenta mais do que cobertores de lãs e menos do que
os teus abraços. O relógio anda. As baratas brincam de circo pela casa. Há
vento em minhas janelas. Tudo em completo movimento. Mas dos meus olhos em
diante, tudo está parado. Intacto numa incrível – e terrível – sensação de gelo
em meus órgãos. Meu mundo está ponta-cabeça e parece que ninguém nota.
Quem
se importa?
Não
sei pedir ajuda. Não sei ligar e fazer o melhor pedido de desculpas do mundo.
Nem aquelas falsas de eu-não-vou-fazer-isso-novamente. Sou assim: meio banal e
estranho. Meio alegre e meio dramático. Faço das letras um tanto de minhas
ideias ilusórias e dos olhos minhas declarações às avessas. As lágrimas
perfumam estes papéis. Dão um tom de realidade que nem eu – um pseudo-farçante
assumido – consegue evitar.
O
tempo passa, mas o sono não vem. Alguns dizem que nem a solidão gosta de estar
só e sempre dá um jeito de conseguir alguém para ficar com ela. Sorte a minha,
fui escolhido. E nesses momentos, a gente percebe detalhes da sala, da TV e do
passado. Mas me calo em papéis, por covarde que sou.
Se ninguém souber que você se arrependeu, vão pensar que fez o que queria.
Comentários
Postar um comentário