Resolvi
escrever e publicar esta crônica após o carnaval, pois eu tinha certeza que
quase ninguém a leria, multidão ocupada em pescar traíra nas lagoas da vida; em
queimar contrafilé na laje; em cantar antigas marchinhas carnavalescas
politicamente incorretas (como aquela que põe em xeque a opção sexual do
cabeludo Zezé, e outra que debocha de um vovô cuja pipa já não sobe mais); em
travestir-se; em pesar a mão na maquiagem; em espremer-se atrás de um trio
elétrico lotado de mulheres gostosas seminuas e um punhado de músicos exauridos
que tocam sem parar que nem playback; em ejacular em pé pelos becos estreitos
da folia; em tomar banho de mijo; em curtir a vida adoidado durante num
daqueles feriadões que só o Brasil tem.
Nem
mesmo mamãe — entretida nas matinês osteoporóticas do Clube da Melhor Idade
(melhor em que sentido, eu gostaria de saber: na concentração de relatos de
desamor, abandono e descaso familiar por metro quadrado?) — devotaria alguns
minutos a ler os meus garranchos. Portanto, penso que foi uma decisão
irritante, porém, acertada.
Estou
me cansando em ser eu mesmo. Por exemplo, meu irmão mais velho chama-me de
iceberg da família. Meu amor diz benzinho, mas também sussurra escroto, quando
julga necessário. Meus filhos — até pela inexperiência de vida e pela malfadada
dependência financeira (não estou me gabando por isso, seus chatos!) — são mais
econômicos e dizem apenas que às vezes eu sou esquisito. Cunhados — vocês sabem
— além de não serem parentes, são terríveis detratores. Tenho uma cunhada que,
olhos nos olhos, diz que eu sou uma pessoa centrada, equilibrada, sistemática.
Contudo, na embriaguez divertida das resenhas familiares, prefere usar o bom e
velho adjetivo urubu de plantão. Mamãe, não. Mamãe eu quero. Mamãe eu quero.
Mãe só existe uma e ela só me chama de meu filho. Daí, então, fica tudo certo.
“Mais
de mil palhaços no salão. Para quem gosta e acha que tem motivos pra comemorar:
bom carnaval”. Li esta frase incrível num renomado jornal da cidade e me senti
menos solitário e melancólico que o habitual. Então, parei de tentar me
embriagar com o enjoativo licor de jenipapo da vovó Almerinda, e ganhei as ruas
da minha cidade maravilhosa cheia de encantos mil. A estrela d’alva no céu
despontava, e a lua andava tonta com tamanho esplendor. Eu podia ter ido às
touradas em Madri, ou namorado uma pastorinha, mas fui ao cinema com minha
gata, pois rolava uma mostra supimpa com mais de cinquenta filmes de várias
nacionalidades.
Escolhi
“Alabama Monroe” (The broken circle breakdown), um filme belga que fora um dos
indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Comprei as poltronas L-16 e
L-17. Quando entramos as luzes já estavam apagadas e foi um custo localizar a
fileira certa. O cinema estava quase lotado e, naquele momento, cheguei a
pensar que, além de mim, havia muito mais do que mil palhaços no salão do
inconformismo.
Acontece
que tinha uma mulher sentada na poltrona L-16. Por causa do breu, eu mal
enxergava o seu rosto. Pelo timbre da voz e pelo ar autoritário, supus se
tratasse de uma mulher enleada nos sessenta anos. Havia também um indisfarçável
mau humor na sua conversa, que me fazia arriscar ela não somente contasse mais
de sessenta, mas padecesse também dos terríveis fogachos da menopausa, mais a escassez
ou ausência completa de sexo com qualquer coisa nesse mundo que respirasse.
Como diz a marchinha, quem não chora não mama. Então, reclamei, pedi que ela se
mandasse dali rapidinho.
“—
É claro que esta poltrona é minha, gracinha”. Até gostei quando ela me chamou
de gracinha, que era um tipo de tratamento que eu também usava, ao contrário
dela, no sentido positivo, carinhosamente.
“—
Confere aqui o meu bilhete pra você ver, meu filho”, ela teimou, impaciente, ao
arrancar da bolsa um pedaço de papel todo amarrotado. Na falta de um
lanterninha (quem foi o fila-da-puta que baniu os flanelinhas das salas de
cinema?), conferi com a luz do meu telefone celular (invenção do capeta, estou
certo) que o tíquete da mulher marcava a poltrona I-16.
“—
Se você fosse sincera, ô ô ô ô”, parodiei baixinho. No meio da escuridão,
insisti que havia um claro equívoco de sua parte, que a sua fileira era a de
letra I, mas ela esbravejou daqui não saio, daqui ninguém me tira, como se
estivesse num bloco carnavalesco de Olinda, ao que o público, claro, começou a
chiar.
Vai.
Com jeito vai. Senão um dia, a casa cai. Cheguei a ponderar se seria razoável
meter uma cotovelada na boca daquela criatura insolente, ao estilo de um
personagem tarantiniano, e enfiar aqueles dentinhos amarelinhos para dentro
(supús que eles não somente seriam amarelos, mas sujos e mal cuidados).
“—
Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros, e depois morreu. Não vai
dar. Não vai dar não. Você vai ver a grande confusão”, concluí. O zum-zum-zum cresceu
e desisti de prosseguir naquele desagradável entrevero. Levantei-me e saímos
tropeçando mais um pouquinho até encontrarmos duas poltronas desocupadas,
quatro fileiras acima da nossa.
Cinema
é arte e magia. Passada a raiva momentânea, viajei na trama de “Alabama Monroe” como se estivesse dentro de um liquidificador
a misturar pensamentos e sensações, muitas delas antagônicas. As mulheres são
espertas, todo mundo sabe. Tanto assim que disfarcei o quanto pude o êxtase que
senti pela linda protagonista, cujo corpo brancacento era atapetado com um sem
número de tatuagens.
A
cena da trepada dentro da picape foi eletrizante, um malabarismo que me fez
lembrar dos velhos tempos em que eu circulava pela cidade no meu carango. Ah,
se meu Chevette falasse. Diria praticamente nada. Em matéria de romance, eu fui
um fracasso completo. Mas isso já não importa. Prossigamos nessa marmota. Um
grande amor tem sempre um triste fim. Quando saísse do cinema, eu ouviria mais
marchinhas de carnaval e tomaria vermute com amendoim.
Luzes
acesas. Pessoas a sugarem lágrimas pelas narinas. Hora da dispersão: a multidão
se erguia. Enquanto descíamos a escadaria, ao passarmos pela fileira L, a
senhorinha já estava em pé a nos aguardar. Pelas condições precárias da
lataria, constatei que ela contava mais de setenta anos. No concernente à
frequência sexual, claro, não ousei perguntar.
“—
Bandeira branca, amor. Não posso mais. Pela saudade que me invade eu peço paz.
Vocês me desculpem, mas é que eu já sou de idade, tenho um olho de vidro, e
muita dificuldade pra me locomover no escuro”, ela explicou, enquanto uma
prótese azul celeste sorria-me o tempo inteiro, sem esclarecer, porém, por que
há pouco ela me tratara de forma tão rude. Minha gata estendeu a patinha a
oferecer ajuda. A velha topou.
Enquanto
ambas desciam à minha frente, lucubrei fantasiosamente se não seria o caso de
lançar-me contra ela numa voadeira, como se fora um membro de uma torcida
organizada, e metia os pés nas suas costas (não nas costas do meu amor, mas da
velhota pedante, agora se dizendo arrependida) a cantarolar ó abre alas que eu
quero passar.
Não.
Eu sou da lira, não posso negar. Todos aqueles pensamentos malfazejos e
surreais eram pura fantasia, divagação, lampejos de um cinéfilo. Despedimo-nos
da miúda claudicante e quase cega senil criatura, e fomos tomar um cappuccino.
Porque pode me faltar tudo na vida: arroz, feijão e pão. Isso até eu acho
graça. Só não quero é que me falte o danado do café.
“—
Meu bem, hoje as águas vão rolar”, comentei, como se eu possuísse uma picape, e
ela riu à beça. Quanto riso, ó quanta alegria! Ela disse meu coração não se
cansa de sempre, sempre te amar. Quem sabe, sabe, conhece bem como é gostoso
gostar de alguém. Pois na hora do aperto é dos carecas que elas gostam mais. E,
sem sassaricar, essa vida é um nó.
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