Eu não
gosto de sonhar dormindo mais do que eu sonho ao permanecer acordado.
Eu não
gosto do altruísmo narcisista das redes sociais.
Eu não
gosto de carinho quando estou nervoso. Eu não sou um cãozinho faminto que rola
e late.
Ainda
que seja amargo como eu, eu não gosto de chocolate.
Eu não
gosto de esconder os ovos de Páscoa das crianças nos arbustos do jardim. Eu não
gosto de brincar com os sentimentos dos outros.
Eu não
gosto de ficar bêbado até dizer a verdade.
Eu não
gosto de revelar os meus deslizes sexuais a um padre.
Eu não
gosto das farras animais.
Eu não
gosto de rodeio, de meter as esporas.
Eu não
gosto de esporrar nas entranhas de uma estranha.
Eu não
gosto de puteiros, de igrejas e da maçonaria.
Eu não
gosto de tanto mistério acerca da vida e da morte.
Eu não
gosto da incompreensível euforia do carnaval.
Eu não
gosto do réveillon.
Por
mais estranho que possa parecer, eu não gosto de me confraternizar com
estranhos.
Eu não
gosto de feriados prolongados.
Eu não
gosto de enforcar sextas-feiras.
Eu não
gosto de mendigar atestado médico para salvar um dia.
Eu não
gosto de entrar num elevador sem dizer “bom dia”.
Eu não
gosto de seguir a onda.
Eu não
gosto de fazer a ola no estádio.
Eu não
gosto de estagiárias burras e desinibidas.
Eu não
gosto de jogar na loteria.
Eu não
gosto de sonhar em ficar rico.
Eu não
quero uma Ferrari, uma ilha só pra mim ou um novo par de tetas.
Eu não
gosto das mutretas.
Eu não
gosto de operar milagres no SUS.
Eu não
gosto de assistir a uma sessão de espancamento do MMA.
Eu não
gosto de sangue no tatame.
Eu não
gosto de ketchup no salame.
Eu não
gosto dos filmes do Cobra e do Jean-Claude Van Damme.
Eu não
gosto da ditadura do silicone.
Eu não
gosto das cicatrizes que, de tão perfeitas, nem parecem cicatrizes.
Eu não
gosto das caras recauchutadas das atrizes e das madames.
Eu não
gosto da farsa de uma toxina botulínica sobre o sorriso.
Eu não
gosto de dizer “eu te amo”, da boca pra fora, como se fosse “me passa a
margarina”.
Eu não
gosto de rissoles frios e de festa infantil.
Eu não
gosto do meu aniversário.
Eu não
gosto de ganhar presentes.
Eu não
gosto do bife bem passado.
Eu não
gosto daquele tempo em que eu era feliz e não sabia.
Eu não
gosto de enaltecer o futebol como se ele fosse arte.
Eu não
gosto do tira-teima da TV.
Eu não
gosto de enaltecer o erro, esmiuçá-lo: o beiço de pulga, a pontinha da
chuteira, o passinho-a-mais-à-frente... Eu acho deplorável massacrar um trio de
arbitragem.
Eu não
gosto de ler as bulas dos remédios.
Mesmo
me sentindo — às vezes — um vendido, eu não gosto de ler os livros mais
vendidos.
Eu não
gosto das dinâmicas em grupo, do esforço concentrado, de rezar o terço, de
fazer suruba.
Eu não gosto de
novena, de novela e da dança da manivela.
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