Desde
a mais tenra idade se habituou a gostar de misturas e de contrastes no seu dia
a dia iluminado de curiosidade. As manias, obsessões, compulsões renitentes não
interessavam a essa menina-menino. Considerava as repetições de qualquer ordem
sempre previsíveis e esvaziadoras de sentidos maiores da vida.
As
experiências, ahhh, sim, as experiências alquimizavam as cores do horizonte
dela-dele trazendo nuances de rosa, tons pastel em degrades delicados, quando
se punha a pintar aquarelas para decorar seu quarto de sonhos.
Ainda
na infância, o menino-menina brincava com bonecas diversificadas, algumas
artesanais, de madeira ou de algodão, que seu paciente e talentoso tio fazia.
Nada de brinquedos prontos. Nada de alegrias serializadas, com cheiro de
indústria cega e fria. Nada de diversão comoditizada, com Barbies ou Falcons
bocejando entediados nas prateleiras das lojas.
Na
hora das refeições, nossa personagem saboreava as delícias do
tudo-junto-e-misturado. Arroz com feijão, pato com molho de laranja, doces e
salgados entrelaçados, convivendo em placidez com as papilas e a gula de sua
língua tão acesa. Eram muitos desejos morando dentro.
Ela-ele
desde cedo também descobriu que possuía hormônios mesclados em sua fisiologia e
glândulas. Estrógenos, testosteronas e afins. Aí achou engraçado ao detectar
sua energética determinação, proatividade e dinamismo no exercício de certas
tarefas. Bem como observou seu olhar lânguido e contemplativo, debruçado sobre
o passeio das nuvens em mutantes e transitórias formas, que lhe preenchiam de
surpresas o teto maior, acoplado lá no firmamento, de sua sagaz existência.
Ao
crescer, ele-ela farejou outras demandas, que lhe atiçavam comichões nos
neurônios. Estudar astrologia, ciências, dedicar-se a atividades ao ar livre,
manter romances explícitos com as rajadas de vento e as lambidas dos raios de
sol, deliciosamente tingindo sua pele de puro ouro. Eram muitos anseios morando
dentro.
Percebeu
a paixão gradual pela literatura de todos os gêneros, a poesia, o levitar de
sua alma inquieta e buliçosa. Caminhou suavemente pela mitologia, as histórias
da medusa e as serpentes, o Cérbero, sátiro, centauro, cujas naturezas
mesclavam frequentemente o humano, o monstruoso e o animal.
Volta
e meia, nossa personagem refletia sobre sua condição irisada, caleidoscópica,
como se flagrasse sendo mais que uma criatura no planeta, um verdadeiro “risoto
de pessoa”. Ele-ela dirigiu-se então, já na idade adulta, à esfera dos
pensamentos e emoções. Todos importa sublinhar, turbulentos, contrastantes e
paradoxais.
Detectou
logo de saída uma enorme bagunça na alma. Ódio e amor, Inveja e benevolência,
mesquinhez e generosidade, individualismo e fraternidade, ciúmes e desapego,
egocentrismo e solidariedade. Tantas emoções e sentimentos acotovelando-se
apertados, entre uma e outra respiração entrecortada ou desabafos solitários.
Eram muitas contradições morando dentro.
De
repente, deu-se conta de que, no laboratório de suas vivências, estes
sentimentos não poderiam excluir-se mutuamente. Nem se desgarrar uns dos
outros. A fusão, a mistura de opostos tornava-se, no caso, imprescindível para
a manutenção e fortalecimento de sua saúde mental.
Abrindo
um parêntesis, quantos de nós alijamos o que aparentemente nos enfeia e
apodrece, como ódio cumulativo e rancores em profusão, erguendo suas soturnas
moradas no desterro da inconsciência.
Talvez
seja perigoso ou danoso, imaginamos, agregarmos todos, a um só tempo, no mesmo
laboratório, submetendo-os a transformações e metamorfoses substanciais. Fel e
mel. Dor e Alívio. Amargura e Amar cura.
Certa
vez pegou-se na leitura de Orlando, de Virgínia Wolff obra na qual se observa a
alternância dos gêneros masculino e feminino.
Nossa
personagem flagrara-se homossexual, bissexual, transexual talvez neste
episódio? Não. Mas dispunha-se a acolher, a partir de então, as premências de
aceitar, intimamente, a livre expressão de desejos sexuais amplos e
diferenciados. Desejos, aliás, que nem sempre precisava externalizar ou colocar
em prática. Como, por sinal, aquelas súbitas raivas e fúrias propulsoras de
instintos assassinos.
Você
se pergunta neste instante: ele-ela tem um nome? — é a inquietação inevitável.
Sim, pencas deles. Daniel, Joana, Flávia, Paulo, Ana, Rogério, você, eu e todos
os iniciados por cada letra do alfabeto. O vizinho estranho da porta ao lado,
seu pai, mãe e aparentados. É muita gente disputando espaço dentro de você.
Enfim,
cai a ficha: percebemos reunir em nosso psiquismo um vasto espectro de
possibilidades e mosaicos mentais, emocionais e atitudinais. Mas nos dá medo,
muito medo, admitirmos essa realidade e tentarmos conviver civilizadamente com
nossos anjos e demônios.
O
mais cômodo e auto apaziguador é atirarmos uns nos outros, como em uma agitada
partida de paint ball, tudo o que nos mancha, desagrada e até envergonha.
Teimamos esconder essa bagagem maldita nos armários da dissimulação cotidiana
ou sob as penumbras do tapete da nossa comportada sala de visitas social.
Escondemos tudo. Nossos gritantes defeitos, hábitos perniciosos, falhas de
caráter eventuais e permissivas faltas de ética.
Afirmamos,
porém, que tudo é lindo e maravilhoso. A harmonia existe, embora você duvide. O
sol se casa com a lua, as alvoradas com os crepúsculos, Os eclipses com as
estrelas. A proposta é deixar estas uniões acontecerem. Faz bem à nossa
felicidade aceitarmos e aplaudirmos todo o tipo de sinergias que permeiam nossa
personalidade.
Uma
provocação: que tal dispor-se a saborear, em sua próxima refeição, o eventual
exotismo de um frango flambado na cerveja, um linguado ao molho de maracujá…
Hum…
Só falta fecharmos os olhos e entregarmos o corpo, o espírito e o paladar a
deleites inusitados. Porque aí você já compreendeu que — deixando todos os
receios e senões de lado — convém sentar-se à mesa com todas as pessoas que
moram em você.
Mas
não para por aí. As sensações vão além e excedem qualquer expectativa para quem
admite ser múltiplo. Creia. Há indescritíveis orgasmos à sua espera.
Experimente oferecer-se a eles.
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