Estudantes
nas ruas, imaginação no poder (planetarei.com.br)
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A
Revolução conheceu dois grandes momentos neste século: a tomada do poder pelos
bolcheviques na Rússia em novembro de 1917 e a rebelião estudantil de maio de
1968 em Paris. A primeira foi um golpe anunciado, a lenta demolição de um
regime corrupto e autoritário; a Segunda aconteceu de surpresa, da noite para o
dia, misturando as ideologias esquerdista e anarquista num movimento
inexorável. Maio de 68 foi apenas a ponta do iceberg de uma serie de mudanças
que vinham se desenhando no Ocidente desde o inicio dos anos 60. A margem da
Guerra Fria, os baby boomers da América e da Europa começavam a desmascarar os
valores vigentes e a desmontar as engrenagens da sociedade militar-industrial.
Um modelo que inspirou a revolta francesa de maio de 68 foi a Revolução Cultural
chinesa, desencadeada por Mao Tse-Tung em 1966. O líder do pais mais populoso
da Terra—comandando um quarto do planeta—tinha a suprema ousadia, aos 70 anos,
de reverter o jogo político e delegar todo poder aos jovens. Na França, ao
contrario, o general De Gaulle, herói da Resistência, permanecia apegado aos
velhos valores da ordem e da hierarquia, numa sociedade sedenta de reformas,
principalmente na área estudantil, onde pulsavam os anseios de uma juventude
inquieta e rebelde.
Outros
incentivos a ação vinham da Revolução Cubana e do martírio de Che Guevara,
morto nas selvas da Bolívia em 1967. E também da América, através do movimento
dos direitos civis de Martin Luther King, da canção folk de Bob Dylan e de Joan
Baez, dos Students for Democratic Society e do Black Power. E, ainda, da
Inglaterra com os sit in do Comitê dos Cem e o rock irreverente dos Beatles e
anárquico dos Rolling Stones.
O
cenário estava pronto para o grande psicodrama que os franceses batizariam de
les euenements de mai. Em Paris, as ruas são tomadas pela efervescência
estudantil, que atinge desde a tradicional Sorbonne, no Quartier latin, ate a
experimental universidade de Nanterre, na periferia. Ironicamente, o IQ de maio
e um dia tranqüilo, com os rotineiros e modorrentos desfiles da Confederação
Geral dos Trabalhadores e do Partido Comunista Francês. Na quinta-feira 2,
começa tudo: em Nanterre, Daniel Cohn-Bendit, um judeu franco-germânico de
cabelos ruivos, apelidado de Dany le Rouge, organiza uma jornada
antiimperialista. No dia 3, a policia expulsa os estudantes do prédio da
Sorbonne e lança as primeiras granadas de gás lacrimogêneo. Depois de uma breve
trégua no fim de semana, a confusão volta na segunda-feira 6: o fechamento das
faculdades leva 49.000 estudantes as ruas. A eles se opõem com truculência
20.000 homens da CRS, a Companhia Republicana de Segurança.
Os
estudantes levantam barricadas com carros virados, arvores e postes arrancados.
Suas armas são paus e pedras—paralelepípedos da pavimentação das ruas—e as vezes
garrafas de coquetel molotov. Balanço do dia: 945 feridos, dos quais 345
policiais; 422 detenções. Depois de desfiles pacíficos durante a semana, a
violência aumenta na sexta-feira 10. São 60 barricadas erguidas pelos
estudantes, algumas com três metros de altura. Na madrugada de sábado 11—e a
Noite das Barricadas—os CRS atacam com suas granadas de gás na Rua Gay-Lussac,
nas proximidades da Sorbonne. O dia amanhece com uma estatística sangrenta: 367
feridos graves, 720 feridos leves (entre eles 251 policiais) e 80 carros
incendiados.
Na
segunda-feira 13, mais de 800.000 pessoas desfilam pelas ruas de Paris. Entre
os manifestantes, estão notáveis como Francois Mitterrand, Pierre Mendes France
e Waldeck Rochet. O apelo a greve, convocada pelas lideranças sindicais, e
obedecido amplamente. No dia 16, as fabricas da Renault entram em greve e
hasteiam a bandeira vermelha. O primeiro ministro Georges Pompidou afirma
autoritariamente que "o Governo fará o seu dever." O presidente da
Republica, general De Gaulie, sentencia: "La reforme, oui; la chienlit,
non". ("A reforma, sim; a baderna, não.") Os estudantes
replicam: "La chienlit c'est lui." ("A baderna e ele.") A
greve geral atinge o apogeu no dia 23 de maio, com nove milhoes de
trabalhadores parados. Por alguns dias, a união entre estudantes e operários,
entre as revoluções cultural e política, e perfeita.
No
dia 24, o general De Gaulle anuncia um referendo e diz que abandonara o cargo
se o projeto for rejeitado. Em 28 de maio, o ministro da Educação, Alain Peyrefitte,
pede demissão. No dia 29, uma manifestação exige a renuncia de De Gaulle. O
velho general se dirige ao pais pelo radio e TV e diz que não vai ceder.
Dissolve a Assembléia Nacional e faz apelo a "ação cívica" contra
"uma empreitada totalitária."
Maio de 68 e, acima de tudo, um duelo de
palavras. Os estudantes lançam a sua principal palavra de ordem—a imaginação no
poder—e através de faixas, grafites e no boca-a-boca, emitem uma serie de
conceitos que refletem toda a criatividade do movimento, como "e proibido
proibir" e "sou marxista, da linha Groucho", ou lembram a frase
do poeta surrealista André Breton: "Sejamos realistas: exijamos o
impossível".
Inspirados
em episódios libertários que se reportam ate a histórica Comuna de Paris, eles
declaram a Sorbonne uma comuna livre e a universidade de Nanterre uma faculdade
autônoma. O que começou como uma luta particular de reivindicações estudantis,
por melhor qualidade de ensino, desaguou num movimento irresistível que
questionou tudo: do principio de autoridade ao estilo de vida, da semântica a
indumentária, da economia a sexualidade.
Maio
de 68 foi talvez o momento da História que mais se aproximou da Utopia. O
grande guru do movimento e o filósofo marxista Herbert Marcuse, autor de
"Ideologia da sociedade industrial" (titulo original: "O homem
unidimensional") e de "Eros e civilização—Uma interpretação
filosófica do pensamento de Freud". Aliando os dois ideólogos que
sacudiram o século—Ereud na área cultural, Marx na política—Marcuse funda sua
dialética na oposição entre o Principio do Prazer e o Principio da Realidade.
Os jovens de maio favorecem a idéia anárquica de uma sociedade autogovernável,
devotada ao prazer. E, durante algumas semanas, eles—e o mundo—tem a ilusão de
que a Utopia e possível.
O
sonho parisiense se espalha: a Tcheco Eslováquia vive a Primavera de Praga, o
resto da Europa—oriental e ocidental—e sacudido por manifestações contra o
status quo; o Oriente, principalmente o Japão, também adere aos protestos; os
Estados Unidos vivem um momento crucial, envolvidos cada vez mais na Guerra do
Vietnã, sofrendo revezes inesperados no campo de batalha e no front interno. A
América Latina também e varrida por surtos de contestação. No Brasil, a partir
de protestos estudantis, verdadeiras massas vão as ruas—pela primeira vez desde
1964—se manifestar contra a ditadura militar.
Ironicamente,
a confrontação de maio de 68 termina num empate técnico. O establishment e
sacudido, faz algumas concessões a contestação e tudo volta ao normal. Os
revoltosos, sem base política, econômica ou militar se dispersam. De Gaulle,
derrotado no referendo de abril de 1969, renuncia a presidência.Mas nada será
como antes. Como os dez dias que abalaram o mundo da revolução soviética, os
trinta dias de maio de 1968 foram um divisor de águas no século. E a Revolução
fez a sua autocrítica na ultima frase do filme "A chinesa", de
Jean-Luc Godard, calcada na imagística maoísta: "Eu pensava ter dado um
grande salto para a frente e percebo que na verdade apenas ensaiei os tímidos
primeiros passos de uma longa marcha".
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